terça-feira, 13 de maio de 2008

Alma


Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,


Atento ao que eu sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem,

Assisto à minha passagem

Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.


Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser.

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: "Fui eu?"

Deus sabe, porque o escreveu.


Alberto Caeiro

4 comentários:

ameixa seca disse...

Às vezes chego a pensar que nem alma tenho... Fernando Pessoa com tantas almas e outros com tão poucas :-p

Nana disse...

Que texto mais lindo!
Amei.
Bjs

HERBERTO ANDRADE disse...

Também eu vou assistindo à minha passagem, às vezes alheio à paisagem, mas atento ao que eu sou e vejo!... às vezes não tenho calma, mas tenho alma para sentir o que escreves e sensibilidade para saber que tens muito para dar! Esta é a forma sublime de homenagear valores que andavam perdidos, Deus sabe porquê...
Força companheira!!!
Hecaloand

Sophie disse...

adoro Fernando Pessoa. Seja ele com que nome for.