quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Instauração da "Lei do Imposto Geral e do Corte Cego"


Monumento aos Restauradores, inaugurado em 1886

Depois de todas as arbitrariedades, dislates e, por que não dizê-lo, borradas, com que este governo nos tem brindado, eis que acaba de resolver-se pela extinção do feriado do 1º de Dezembro, comemorativo da Restauração da Independência*. Parece-me, entre outras coisas, um péssimo sinal dos tempos, um grande atentado à nossa identidade nacional, a um dos  nossos orgulhos enquanto Povo. Bem sei que há por aí muito boa gente que não se importaria nada que Castela tivesse continuado a dominar-nos, mas eu não pertenço a esse partido. Até porque afinal a Espanha está em vias de também se ver nas mãos dos abutres, eufemisticamente chamados de troika... Quanto à teoria de que este é um feriado apenas comemorado por monárquicos, isso revela tanta ignorância que nem merece comentários.


Alegoria da Lusitânia


1 de Dezembro de 1640

«Dá-se o nome de Restauração ao regresso de Portugal à sua completa independência em relação a Castela em 1640, depois de sessenta anos de regime de monarquia dualista (1580-1640) em que as coroas dos dois países couberam ambas a Filipe II, Filipe III e Filipe IV de Castela.

 (…) A má administração do governo espanhol constituía uma grande causa de insatisfação dos Portugueses em relação à união com Castela. Dessa má administração provinha o agravamento dos impostos. (…)

A 6-VII-1628 era expedida a carta régia que (...) mandava levantar, por meio de empréstimo forçado, as quantias necessárias para a defesa, durante seis anos, de todos os lugares dos nossos domínios ameaçados pelos estrangeiros. A população mostrou logo a sua má vontade. (…) A tensão agravou-se quando o clero (cujos privilégios o isentavam de tais imposições) se viu também incluído na colecta geral. (…) Também no Ultramar surgiram protestos. (…) Em 1635 era estendido a todo o reino o imposto do «real de água», bem como o aumento do das sisas.

 (…)  É de notar, todavia, que aos incitamentos internos se acrescentava um exterior, provindo da França, (…) então em luta com a Espanha, [que] se empenhava em impelir Portugal e a Catalunha contra o governo de Madrid. (…)

(...) uma outra resolução que descontentou a nossa gente (...) convocou a Madrid grande número de fidalgos, e ordenou levas de tropas para servir nas guerras que a monarquia espanhola sustentava, sangrando assim Portugal das suas maiores forças. (…)

O que veio dar mais impulso à ideia da independência foram as novas exigências do conde-duque. Em Junho de 1640, com efeito, insurgia-se a Catalunha, e Olivares pensou em mandar portugueses a combater os catalães revoltados, ao mesmo tempo que se anunciavam novos impostos. (…) Aderiram à conjura o juiz do povo, os Vinte e Quatro dos mesteres e vários eclesiásticos, entre os quais o arcebispo de Lisboa, D. Rodrigo da Cunha. Deram também a sua colaboração o doutor Estêvão da Cunha, deputado do Santo Ofício, e D. António Telo. Em Outubro realizou-se uma reunião conspiratória no jardim do palácio de D. Antão de Almada, a S. Domingos, em Lisboa. Assistiram, além dele, D. Miguel de Almeida, Francisco de Melo, Jorge de Melo, Pêro de Mendonça e João Pinto Ribeiro. (…)



 Teve também influxo na resolução a mulher do futuro Monarca, D. Luísa de Gusmão. (…)

Chegado a Lisboa a 21-XI-1640, João Pinto Ribeiro convocou os conspiradores para uma reunião num palácio que o duque tinha em Lisboa e onde ele, João Pinto, residia. Decidiu-se estudar em pormenor o plano do levantamento, amiudando-se as reuniões.

Por fim, marcou-se o momento de sublevação: 9 horas da manhã de sábado, 1.º de Dezembro.

Na noite de 28 para 29 surgiram complicações, por haver quem julgasse que eram poucos os conjurados; mas João Pinto Ribeiro, a quem quiseram encarregar de transmitir ao duque o intuito de se adiar, opôs-se tenazmente a tal ideia, numa discussão que se prolongou até as 3 horas da manhã. (…)

D. João IV

O dia 1.º de Dezembro amanheceu de atmosfera clara e muito serena. Tinham-se os conjurados confessado e comungado, e alguns deles fizeram testamento. Antes das 9 horas foram convergindo para o Terreiro do Paço os fidalgos e os populares que o padre Nicolau da Maia aliciara.




Soadas as nove horas, dirigiram-se os fidalgos para a escadaria e subiram por ela a toda a pressa. Um grupo especial, composto por Jorge de Melo, Estêvão da Cunha, António de Melo, padre Nicolau da Maia e alguns populares, tinha por objectivo assaltar o forte contíguo ao palácio e dominar a guarnição castelhana, apenas os que deveriam investir no paço iniciassem o seu ataque. Estes rapidamente venceram a resistência dos alabardeiros que acudiram ao perigo e D. Miguel de Almeida assomou a uma varanda de onde falou ao povo.
Estava restaurada a independência…»



E agora pergunto eu: tudo isto não será motivo mais do que suficiente para comemorar, para se manter este dia como feriado nacional? A resposta parece-me tão óbvia...


Bibliografia: In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia, Limitada, Vol. 25, Lisboa/Rio de Janeiro, 1978, pp. 317-319.


P.S. - Opinião pessoal sobre o nosso Primeiro: é uma pessoa muito inteligente, mas a sua atitude perante a troika é a de um discípulo subserviente e bajulador.

* Obviamente que a abolição deste e de outros feriados a partir de 2012 não é uma das medidas mais graves tomadas pelo executivo, mas foi esta que veio hoje à baila. Outras virão, a seu tempo. Sim, porque se considero esta grave, outras há que, para elas, nem encontro adjectivos capazes de as qualificar.



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Rómulo de Carvalho, ou o poeta António Gedeão

Nasceu há 105 anos.

«Professor de Química e Física, poeta, investigador, historiador, escritor, fotógrafo, pintor e ilustrador, Rómulo Vasco da Gama de Carvalho (...) nasceu a 24 de Novembro de 1906 na Rua do Arco do Limoeiro (hoje Rua Augusto Rosa) na lisboeta freguesia da Sé. Aí cresceu, juntamente com as irmãs, numa casa modesta e num ambiente familiar tranquilo.»


Rómulo de Carvalho com os pais


Com as irmãs.


"Diz a minha mãe que eu comecei a fazer versos aos 5 anos e aos 10 tive a comoção de ver os primeiros impressos e públicos.
Escrever poemas foi sempre para mim um estado de angústia, um sofrimento autêntico. Amorteci todo esse sofrimento durante anos até ao dia em que por motivos dolorosos me desfiz dele por completo na ingénua presunção de que me atrapalhava. Sobre isso passaram vinte anos.

Após eles... tive trágica conversa comigo mesmo, a sós, e resolvi nascer de novo."
Carta a Jorge de Sena, de 29-12-1963

Dividido por muitos interesses e actividades, licenciou-se em Ciências Fisico-Químicas, mas a Poesia sempre foi uma grande paixão.

Pedra Filosofal foi o poema que se tornaria mais conhecido, um dos mais declamados, cantados e aclamados.

Aqui, numa excelente interpretação  do fadista Carlos do Carmo.



Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

In Movimento Perpétuo, 1956

A totalidade da sua vasta obra pode ser consultada no site referido abaixo, mas sem dúvida que  Pedra FilosofalLágrima de Preta foram os dois poemas que se tornaram mais conhecidos.

Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


Foi muito influenciado pela figura materna, que lhe incutiu o gosto pelas Letras.

"(…) A minha Mãe tem para mim um significado muito especial, não é por dever, é porque … Há um poema chamado «Mãezinha» em que coloco a situação num plano puramente probabilístico: meu pai pela rua, uma eliminação acidental de pessoas, de acontecimentos, até que restou uma pessoa, minha Mãe. Até já ouvi recitá-lo com um certo ar de graça. Ora não tem graça de espécie nenhuma: é simplesmente um agradecimento por me ter permitido ser assim como sou."

In Jornal Expresso, 4 de Junho,1994

Mãezinha

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.

28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de fiilhos…
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.


Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego, às horas em
que entrava e saía do emprego.


Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.


A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igeja.
Foi a minha mãezinha.


"A minha mãe tinha apenas a escola primária mas ela, como uma das minhas irmãs, amava os livros , e por isso havia em casa um certo ambiente literário.(…)Um dos livros que eu vim a considerar uma espécie de bíblia- 1001 Noites- também chegou até nós. (…) A minha mãe não escrevia poesia, pelo menos não abertamente, mas eu sei que no fundo ela o fazia. Disso estou absolutamente certo. E tudo o que sou hoje é na verdade a reprodução dela. A rosa a que eu me refiro num dos meus poemas é uma reprodução dela. Por isso, na casa de meus pais havia uma espécie de atmosfera literária. Éramos instigados para estarmos interessados pela poesia, mas é claro, de uma forma muito modesta."

Um grande poeta português. A sua vida e obra, bem como uma interessante galeria de fotos,  podem ser conhecidas no site:
http://www.romulodecarvalho.net/

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sister, the show must go on

The show must go on.

Quer o sol brilhe, quer esteja coberto de nuvens negras.

Mesmo que tudo à volta pareça querer sufocar-nos.

Mesmo que nos pareça que somos incapazes de lidar com as situações, The show must go on!

Mesmo que se pense que não se aguenta.

Mesmo que apeteça fazer as malas e zarpar.

Mesmo que não apeteça encarar o dia, The show must go on!

Mesmo que a angústia queira tomar conta de nós.

Mesmo que nos sintamos impotentes perante a realidade.

Mesmo que por vezes o mundo pareça ruir sobre nós, The show must go on!


Pretend you're happy when you're blue
It isn't very hard to do



http://youtu.be/L3AGW_1r3fY

Não é tão fácil quanto isso, mas às vezes é uma solução.

Tu és muito mais forte do que tu própria imaginas. Que as divindades te continuem a dar muita força, é o que mais desejo neste momento. Porque o espectáculo tem que continuar!


http://youtu.be/Pm9jywRFhYU

Feliz Aniversário!



quinta-feira, 3 de novembro de 2011



Será que alguém sabe onde fica o "céu dos gatinhos"? 

Eu não sei onde fica, mas de uma coisa eu tenho a certeza. Esse céu, há três dias, ficou muito, mas muito mais brilhante. Foi quando lá chegou o meu querido amiguinho. 

Fica para sempre no meu coração, junto com uma saudade enorme, mas também com recordações muito bonitas. Sei que foi feliz, e que nos fez muito felizes com a sua companhia.

Sinto tanto a falta dele! 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ressonâncias poéticas da BCFV


No rescaldo da BCFV, eis que me foi sugerido pela Rute fazer a ligação entre cada uma das fases da vida e um poema. E que bela sugestão!! Sinceramente, adorei a ideia. Noutros tempos, até que talvez me ocorresse algo semelhante, uma vez que gosto imenso de poesia, e até usei alguns poemas durante as postagens desta blogagem colectiva. Mas na época presente, a cabeça está esgotada, nada de ideias criativas, muito menos brilhantes. :) Felizmente que há pessoas com as cabecinhas vibrantes de ideias, para nos darem estas magníficas sugestões. :)
Cá ficam então as minhas ressonâncias, ou melhor, as ressonâncias do tema fases da vida, pela voz de quem as cantou ou reflectiu sobre elas.
(Em algumas das fases optei por juntar poesia e prosa, de modo a fornecer mais do que uma perspectiva).


1ª fase - NASCIMENTO

Eternidade
Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo.

Jorge de Sena, in 'Perseguição'





2ª fase - INFÂNCIA

Pequenina
És pequenina e ris ... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa ...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te faz tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente ...
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente ...

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"


"É preciso ser-se muito infeliz para se ser infeliz durante a infância. É preciso que haja uma infelicidade com dor. Desde que uma criança vá tendo algo para comer e um espaço para brincar não sente a miséria."
Autor - Millôr  Fernandes
Fonte: Tabu (Sol) / 2007


3ª fase - ADOLESCÊNCIA
(Aqui apenas prosa, por não ter encontrado nenhum poema que considerasse significativo). 


"Jovens e nus frente ao mar, estão presentes em cada célula do seu corpo. Mas a vida que têm é demais para eles e não sabem que fazer dela. Emergem da água rutilantes e riem. Depois deitam-se na areia, gastam o dia e a noite a amar-se, a embebedar-se, a estoirar todo o prazer e forças que têm. E ficam ainda com vida por gastar. É desses sobejos já com bolor que terão de viver depois na velhice."  
Fonte - Escrever  
Autor - Vergílio Ferreira


4ª fase - JUVENTUDE

Mocidade
A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa.
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;

Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!

No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!

Ama-me doida, estonteadoramente,
O meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"




5ª FASE - MATURIDADE

A Mocidade Propõe, a Maturidade Dispõe  
É função da mocidade ser profundamente sensível às novas ideias como instrumentos rápidos para dominar o meio; e é função da idade madura opor-se tenazmente a essas ideias ; isso faz com que as inovações fiquem em experiência por algum tempo antes que a sociedade as ponha em prática. A maturidade atenua as ideias novas, redu-las de modo a caberem dentro da possibilidade ou a que só se realizem em parte. A mocidade propõe, a maturidade dispõe, a velhice opõe-se. A mocidade domina nos períodos revolucionários; a maturidade, nos períodos de reconstrução; a velhice, nos períodos de estagnação. «Dá-se com os homens», diz Nietzsche, «o mesmo que com as carvoarias na floresta. Só depois que a mocidade se carboniza é que se torna utilizável. Enquanto está a arder será muito interessante, mas incómoda e inútil.»
Will Durant, in 'Filosofia da Vida'

 

Essas Coisas 
«Você não está mais na idade
de sofrer por essas coisas.»

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?

Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

E se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'



6ª FASE -  MELHOR IDADE? - VELHICE

(Nesta fase ponho vários textos, porque quis mostrar diferentes pontos de vista. Não me quis ficar pela negatividade tantas vezes associada a esta etapa, mas também tenho que confessar que, por vários motivos e pelo que vejo à minha volta, não a posso considerar a Melhor Idade, embora lhe veja muitas vantagens.)
 
A Velhice Pede Desculpas
Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.
Cecília Meireles, in 'Poemas (1958)'


"A velhice anuncia ao homem o seu destino: o homem insensato, que afinal todos somos mais ou ou menos, tende a recusá-lo, maquilhando-a, disfarçando-a enquanto pode e depois encerrando-a longe da vista e do coração. O reverso da medalha é o culto da juventude. Televisões, rádio, publicidade, lazer, estão cada vez mais virados para os jovens e adolescentes. Mas sob o lema "o futuro pertence aos jovens" está normalmente mais uma aposta comercial do que uma verdadeira preocupação social. Num mundo em que a aparência é tudo, as rugas não têm direito à vida."  
Fonte - Público / 2003.09.05
Esther Mucznik

A Sabedoria da Velhice  
Aquele que envelhece e que segue atentamente esse processo poderá observar como, apesar de as forças falharem e as potencialidades deixarem de ser as que eram, a vida pode, até bastante tarde, ano após ano e até ao fim, ainda ser capaz de aumentar e multiplicar a interminável rede das suas relações e interdependências e como, desde que a memória se mantenha desperta, nada daquilo que é transitório e já se passou se perde.

Hermann Hesse, in 'Elogio da Velhice'


7ª fase - MORTE

(Aqui apenas uma visão, neste caso relacionada com Deus, que não fará sentido para todos, mas é uma visão, como poderia ser outra...)

Na Mão de Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental, in "Sonetos"



 8ª fase - VIDA PARA ALÉM...

Os Anos são Degraus

Os anos são degraus, a Vida a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la.

São vários os degraus; alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.

Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão.

Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da Estrada,
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
e mais nada?

Fernanda de Castro, in "Asa do Espaço"



...como é possível a descrença, imaginar, sequer, que ao fim da Estrada, se encontre após esta ansiedade imensa, uma porta fechada
e mais nada?



Aqui fica para reflexão...



sábado, 15 de outubro de 2011

Recomeço - BCFV

  E assim se fecha um ciclo... 

É o fim, ou é um recomeço? 



Perante um tema tão controverso, recorri à introdução feita pelas meninas organizadoras desta B.C. (Rute, Gina e Rosélia):
« O que esperar após a Morte? O vazio, o nada, o descanso eterno? Julgamento, punição pelos pecados cometidos ou glória, prémio pelas boas acções? Deus e o Diabo existem, Paraíso e Purgatório? Há quem diga que quer no Céu, quer no Inferno, café expresso haverá sempre! Ficamos torcendo para que George Clooney também!
Por falar nisso, esperam encontrar almas familiares, amadas, conhecidas? Esperam que lhes seja dada nova oportunidade de voltar a este plano, de corrigir, aperfeiçoar?
Onde atingir a plenitude, cá ou lá, para além do que os nossos 5 sentidos permitem assimilar?
Podemos dizer que é reconfortante crer na vida além da morte. Tranquiliza-nos crer que não é o fim do caminho, traz sentido ao absurdo que é sofrer e lutar sem nenhum propósito.
Mito? Realidade? Mentira? Verdade?  »

Gostava muito de ter respostas para tantas perguntas, mas não creio que alguém as tenha. Pode haver crenças, suposições, mas certezas não. Claro que quem acredita acha que tem as respostas, mas eu sou (ou tornei-me) muito céptica. As dúvidas são mais que muitas, os questionamentos são constantes. Em princípio acredito em outras vidas, mas não é uma crença totalmente firme, muitas vezes dou por mim a pôr isso (como muitas outras coisas) em causa. 

Pegando no texto acima, concordo que é extremamente reconfortante pensar
que a vida "não é só isto",
que não faz sentido tanto esforço para tão pouco tempo,
que aqui estamos a sofrer, neste "vale de lágrimas", e depois é que vamos para o céu... e por aí fora...  (Peço desculpa a quem tem convicções religiosas mais firmes do que as minhas, isto não é uma crítica a quem acredita, longe de mim, quem me dera ser mais crente, até porque essa crença  apazigua a alma.)
Mas... essa é uma ideia que pode ser perniciosa, porque pode tornar-se um sedativo para a realidade: "agora está tudo a correr mal, mas na próxima vida será diferente". Eu própria digo muitas vezes, se bem que em tom de brincadeira, «na próxima encarnação não vou querer isto ou aquilo, na próxima encarnação vou fazer isto e aquilo de maneira totalmente diferente».  Confesso que a ideia é sedutora, principalmente para quem, como eu, tem tantos "arrependimentos". Que consolo pensar «para a próxima vou fazer tudo bem!» Mas isto é como um daqueles medicamentos que nos impedem de sentir a dor, mas não eliminam a causa da doença...  

Como não me ocorrem as palavras certas, deixo aqui este poema que me parece ser  um bom contributo para esta reflexão. 


Vida Sempre 

Entre a vida e a morte há apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o porão do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.

A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na máquina incomparável do universo.

Casimiro de Brito, in "Solidão Imperfeita"


E, como não podia deixar de ser, o meu poeta preferido:

 PROMESSA 

Não desanimes por me veres ao lado
Triste como um ribeiro que secou.
Isto passa, 
Podes ter a certeza. 
Basta o degelo começar... 
O poeta é uma graça
da natureza:
Há-de sempre cantar.
Arranja pois as jarras da alegria,
E vai sorrindo já dos meus desleixos...
Eu volto a rolar seixos
Qualquer dia. 

 MIGUEL TORGA, Díário V

 Renovação de estados de espírito, renovação da Vida... 


Renovo também os meus agradecimentos às 3 RRR,

foi uma experiência muito enriquecedora! Obrigada, meninas. 



 ***
Para concluir,  devo dizer que se o café expresso está garantido, estou muitíssimo mais descansada. Até prescindo do Clooney, contento-me com o café.  :))