quarta-feira, 9 de maio de 2012

O Despertar do Irão, de Shirin Ebadi

O Despertar do Irão é um livro de memórias de Shirin Ebadi, activista dos direitos humanos galardoada com o Nobel da Paz em 2003.

Li o livro recentemente e gostei bastante. Fiquei a conhecer em detalhe a história recente do Irão, e muitas situações que não eram claras para mim passaram agora a fazer mais sentido. Outras continuam a não fazer sentido nenhum...

Há tempos atrás, manifestei a minha opinião contra o facto de em França ter sido proibido o uso do véu islâmico, por considerar que as mulheres que o queriam usar tinham direito a fazê-lo. Agora, com toda a sinceridade, depois de conhecer melhor a história do Irão e perceber que o véu pouco ou nada mais simboliza do que a opressão da mulher ao longo dos séculos, terei que reconsiderar... As mulheres que insistem em usá-lo, e sobretudo as que andam totalmente cobertas, inclusive o rosto, saberão realmente o verdadeiro significado de tudo aquilo?

Shirin Ebadi

Shirin Ebadi nasceu em 1947  e desde cedo teve um papel importantíssimo na luta pelos direitos humanos, em particular depois da implementação do regime dos ayatollahs.
Muito há a dizer acerca deste livro. Iniciei um post, mas estava a ficar com dimensões "ilegíveis", de modo que decidi separá-lo por temas.
Hoje vou deixar aqui excertos do livro que têm a ver com a situação das mulheres no Irão.
A defesa dos direitos das mulheres tem sido uma luta constante para Shirin.



Segue a descrição de uma situação no mínimo caricata, ilustrativa da importância dada às mulheres, em pleno Parlamento iraniano:
«Depois do chá, recolhemos ao aposento privado das mulheres para conversar. Quando estávamos a chegar ao fundo do corredor, o primeiro sinal de alarme foi o facto de o aposento não ter efectivamente porta, mas apenas uma cortina. Entrámos para uma sala vazia cujo pavimento estava coberto por um tapete feito à máquina. Eu continuava a procurar uma outra porta que desse para a sala onde elas realmente se sentavam para trabalhar. Mas todas pousaram as suas coisas no chão e todas se sentaram no tapete, de pernas cruzadas. “Por que é que não há cadeiras?”, perguntei. “Por que é que nem sequer existe aqui uma máquina de fotocópias? Isto é o parlamento!” “Bem, nós já pedimos imensas vezes uma máquina de fotocópias”, disse uma das deputadas, “mas disseram-nos que somos muito poucas para justificar termos o nosso próprio equipamento de escritório. Temos autorização para usar os gabinetes dos homens, claro, mas preferimos estar aqui, porque geralmente está muito calor e, pelo menos aqui, podemos despir o chador e respirar um pouco.”»
«Ali mesmo, naquele sítio e àquela hora, o meu coração despedaçou-se um pouco. Ali estávamos nós no parlamento, dentro das próprias paredes onde se supunha que estas mulheres estivessem a legislar e a mudar as condições de milhões e milhões de mulheres lá fora, e elas nem sequer conseguiam garantir uma mesa para si próprias. O que é que se consegue alcançar na sociedade em geral, quando isto é tudo o que se conseguiu dentro da própria instituição? »


Em relação à imposição do uso do lenço (ou véu)


A mãe da autora, nascida nos anos 20, nunca usou o lenço.

«O “convite” ao uso do lenço na cabeça foi o primeiro sinal de que esta revolução (1979) poderia vir a engolir as suas irmãs, que era como as mulheres se chamavam umas às outras enquanto faziam campanha para derrubar o Xá. Imaginem o cenário, poucos dias após a vitória da revolução. Um homem chamado Fathollah Bani-Sadr foi nomeado para procurador provisório do Ministério da Justiça. Ainda inchados de orgulho, alguns de nós escolheram uma tarde límpida e fresca para descer até ao seu gabinete e para o congratular. Ocupámos todo o aposento e trocaram-se muitas saudações afectuosas e felicitações rebuscadas. Até que o olhar de Bani-Sadr se deteve em mim. Esperava que ele me agradecesse ou que exprimisse o quanto significava para ele o facto de uma empenhada juíza e mulher, como eu, ter permanecido ao lado da revolução. »

«Em vez disso, ele disse: “Não acha que, por respeito ao nosso adorado Imã Khomeini, que agraciou o Irão com o seu regresso seria melhor que você cobrisse os seus cabelos?” Fiquei abalada. Ali estávamos nós, no Ministério da Justiça, depois de uma imensa revolta popular ter substituído a antiga monarquia por uma república moderna, e o novo procurador da justiça estava a falar sobre cabelo. Cabelo!





Em toda a minha vida, nunca usei lenço na cabeça”, disse eu,“e seria uma hipocrisia começar a fazê-lo agora.
“Então, não seja hipócrita e use-o com fé!”, disse ele, como se tivesse acabado de resolver o meu dilema.
“Oiça, não seja tão engenhoso”, respondi. “Eu não deveria ser forçada a usar véu e, se não acredito nele, simplesmente não vou usá-lo.”
“Mas não vê como é que as circunstâncias se estão a desenvolver?” perguntou ele, levantando a voz.
“Sim, mas não quero fingir ser uma coisa que não sou”, disse eu, abandonando a sala.
Eu não queria ouvir, ou sequer pensar, no tipo de realidade que “as circunstâncias” reservavam para nós. »
E Shirin acabou por ter de o usar, de outro modo corria o sério risco de ser presa por esse motivo.
Fotografia para o passaporte, já com o uso do véu sendo obrigatório.

O seguinte excerto tem a ver com o preconceito em relação a mulheres instruídas e/ou ocupando cargos de relevo:

«Ainda que o Irão fosse dirigido por um governo secular, ainda que eu fosse uma juíza, mulher, com assento próprio e uma carreira promissora diante de mim, a cultura iraniana continuava a ser dominada por um sistema patriarcal, o que significava que todos os meus pretendentes se afastavam. Felizmente, eu não dava muita importância à ideia de que ser juíza era um dramático entrave às minhas perspectivas matrimoniais. Os livros e as teorias de Direito interessavam-me mais do que a fixação num lugar ou o design de interiores, e o trabalho completava tão intensamente a minha vida, que eu não sentia o enorme e doloroso vazio que apenas um marido pode preencher.
Contudo, não me era indiferente o facto de que, sendo de boas famílias, tendo uma aparência atraente e um emprego respeitável, eu não tinha muitos pretendentes. Conclusão: a minha carreira enchia de medo o coração dos homens iranianos. No momento em que se imaginavam a casar comigo, imaginavam-se também numa contenda matrimonial com uma juíza - e acreditavam, suponho, que não poderiam limitar-se a dizer "Porque eu disse que era assim" e bater com a porta - e fugiam na direcção oposta. Descobri ainda que isto se aplicava tanto aos homens iranianos instruídos e supostamente modernos, como aos conservadores - preferiam, simplesmente, ser superiores e mais importantes do que a mulher com quem casavam. E claro que uma mulher independente, com objectivos próprios, estaria menos disponível para os amar cegamente e para os servir em todas as ocasiões. (...)
Uma noite, na festa de um amigo, um jovem senhor andou à minha volta durante metade da noite, até convencer o anfitrião a apresentar-nos. (...)
 «Ficou combinado que iríamos encontrar-nos, na semana seguinte, numa outra festa. Disse-me que estava apaixonado e que se o seu sentimento fosse recíproco, pediria imediatamente a minha mão em casamento. (...) No fatídico dia da tal festa, e antes de me vir cumprimentar (...) foi ter com o anfitrião, dizendo que se soubesse que eu era juíza, nunca teria insistido em encontrar-se comigo novamente. »


«A Nobel da Paz iraniana (...)  reconhece que, enquanto mulher no Irão, continua a sentir-se na pele de "um negro na altura do apartheid". "Infelizmente, enquanto tivermos leis discriminatórias sentir-me-ei assim, tal como todas as mulheres do meu país".»

Link para uma entrevista dada por Shirin Ebadi em Lisboa, em 2009, a propósito de outro seu livro mais recente, «A Gaiola de Ouro», entrevista da qual faz parte o excerto acima.

5 comentários:

Noémia disse...

Olha, adorei ler estes excertos do livro, ainda bem que os publicaste e partilhaste.
Normalmente evito este tipo de leituras porque começa a crescer em mim uma revolta tal e ao mesmo tempo uma sensação de impotência que me agoniam. Leva tempo a passar-me. É revoltante como alguns povos vivem em plena Idade Média, ou pior, em relação às mulheres. Só mesmo à estalada. A eles porque as tratam assim e a elas, que tirando raras excepções, se acobardam e admitem este estado de coisas.
Dou graças a Deus por viver na Europa, neste pequeno país à beira mar plantado, que tem montes de problemas mas em que posso ser EU e livre! Bjs :)

Lúcia Soares disse...

O livro deve ser fascinante, Cláudia. Vou lê-lo, com certeza.
É mesmo difícil imaginar o que seja a vida dessas mulheres que não têm escolha, afinal. As que têm, rebelam-se, saem do país, mas a maioria fica e tem que se submeter à tradição machista.
Obrigada por falar do livro.
Beijo!

Ivani disse...

O que sei sobre o Irã aprendi através de noticiarios e documentários da televisão.
Para mim esse país é um enigma.
Nunca entendi muito bem essa religião fanática e essa maneira estúpida de subjugar a mulher. E esse é um assunto bem revoltante, diga-se de passagem.
Portanto, vou adorar acompanhar suas postagens.
Já vi uma entrevista em um canal internacional de TV com a autora Shirin Ebadi.
É uma mulher de fibra, valente, pois lutar contra um regime machista e autoritário como o do Irã, não é para qualquer mulher. Mas ela não é uma qualquer.
Vou esperar a continuação de suas postagens.
Obrigada por compartilhar conosco esse seu gosto pela informação.
Beijos Claudia, tenha uma boa noite.

Isabel disse...

Esse livro parece ser bem interessante, mas tal como a Noémia fico com uma raiva tão grande quando o tema é esse, que nem sei se consigo lê-lo! Como é que é possível, que depois de séculos de luta por igualdade e respeito ainda existam mulheres que sentem orgulho em se submeter a essas regras absurdas?
Só de ler os excertos já fiquei fã dessa senhora, uma mulher de armas.
Bjs

Heloísa disse...

Claudia,
Fiquei interessada pelo livro, embora também fique revoltada com esse tipo de sociedade.
Beijo.