quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Rómulo de Carvalho, ou o poeta António Gedeão

Nasceu há 105 anos.

«Professor de Química e Física, poeta, investigador, historiador, escritor, fotógrafo, pintor e ilustrador, Rómulo Vasco da Gama de Carvalho (...) nasceu a 24 de Novembro de 1906 na Rua do Arco do Limoeiro (hoje Rua Augusto Rosa) na lisboeta freguesia da Sé. Aí cresceu, juntamente com as irmãs, numa casa modesta e num ambiente familiar tranquilo.»


Rómulo de Carvalho com os pais


Com as irmãs.


"Diz a minha mãe que eu comecei a fazer versos aos 5 anos e aos 10 tive a comoção de ver os primeiros impressos e públicos.
Escrever poemas foi sempre para mim um estado de angústia, um sofrimento autêntico. Amorteci todo esse sofrimento durante anos até ao dia em que por motivos dolorosos me desfiz dele por completo na ingénua presunção de que me atrapalhava. Sobre isso passaram vinte anos.

Após eles... tive trágica conversa comigo mesmo, a sós, e resolvi nascer de novo."
Carta a Jorge de Sena, de 29-12-1963

Dividido por muitos interesses e actividades, licenciou-se em Ciências Fisico-Químicas, mas a Poesia sempre foi uma grande paixão.

Pedra Filosofal foi o poema que se tornaria mais conhecido, um dos mais declamados, cantados e aclamados.

Aqui, numa excelente interpretação  do fadista Carlos do Carmo.



Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

In Movimento Perpétuo, 1956

A totalidade da sua vasta obra pode ser consultada no site referido abaixo, mas sem dúvida que  Pedra FilosofalLágrima de Preta foram os dois poemas que se tornaram mais conhecidos.

Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


Foi muito influenciado pela figura materna, que lhe incutiu o gosto pelas Letras.

"(…) A minha Mãe tem para mim um significado muito especial, não é por dever, é porque … Há um poema chamado «Mãezinha» em que coloco a situação num plano puramente probabilístico: meu pai pela rua, uma eliminação acidental de pessoas, de acontecimentos, até que restou uma pessoa, minha Mãe. Até já ouvi recitá-lo com um certo ar de graça. Ora não tem graça de espécie nenhuma: é simplesmente um agradecimento por me ter permitido ser assim como sou."

In Jornal Expresso, 4 de Junho,1994

Mãezinha

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.

28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de fiilhos…
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.


Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego, às horas em
que entrava e saía do emprego.


Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.


A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igeja.
Foi a minha mãezinha.


"A minha mãe tinha apenas a escola primária mas ela, como uma das minhas irmãs, amava os livros , e por isso havia em casa um certo ambiente literário.(…)Um dos livros que eu vim a considerar uma espécie de bíblia- 1001 Noites- também chegou até nós. (…) A minha mãe não escrevia poesia, pelo menos não abertamente, mas eu sei que no fundo ela o fazia. Disso estou absolutamente certo. E tudo o que sou hoje é na verdade a reprodução dela. A rosa a que eu me refiro num dos meus poemas é uma reprodução dela. Por isso, na casa de meus pais havia uma espécie de atmosfera literária. Éramos instigados para estarmos interessados pela poesia, mas é claro, de uma forma muito modesta."

Um grande poeta português. A sua vida e obra, bem como uma interessante galeria de fotos,  podem ser conhecidas no site:
http://www.romulodecarvalho.net/

2 comentários:

Ameixinha disse...

Temos uma herança poética bem rica :)

Cláudia disse...

Sem dúvida, poética e não só. No fundo, somos bons! :)