quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Hora suave






















(foto de Isabel Marques)



Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um voo de ave
E me entristeço!

Porque é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Porque vai sob o céu aberto
Sem um desvio?

Porque ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade

Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh'alma alheia

Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do voo suave
Dentro em meu ser.

Fernando Pessoa, «Poesias»

4 comentários:

ameixa seca disse...

Ó Nandinho se tivesses algo de suave dentro de ti, não terias metade da piada :) Nós gostamos de ti assim... intenso! Pelo menos eu gosto ;)

Cláudia M. disse...

Claro que sim, sempre intenso!

Mas quando a inquietação é muita, há necessidade de alguma suavidade para a apaziguar... :)

bjs

Isabel disse...

Não conhecia este poema de Pessoa (ele próprio), é muito bonito.
A foto é minha, tens a certeza?! Não me lembro hihi :)

Cláudia M. disse...

É tua, sim senhora :)
tenho aqui algumas das que tiraste no verão (nota-se pela secura...)

Tb gosto muito deste poema.