segunda-feira, 15 de agosto de 2011

BCFV - Melhor Idade


Autumn Leaves por David Wagner



Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente em mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa! ...”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até o fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente ...
Já murmuro orações ... falo sozinha ...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"


Cá estamos para mais uma etapa desta blogagem coletiva, eis-nos chegados à melhor idade.


No texto sobre a maturidade, deixei ficar a ideia de que se pode ter 18 anos e ser maduro, assim como se pode ter 60 e ser imaturo. Tudo depende de uma série de factores, nada é estanque no conceito de maturidade, como em outros.
Chegados agora à melhor idade, expressão que de certa maneira  pode quase ser considerada um eufemismo para velhice, pode suceder o mesmo. Há pessoas na casa dos vinte ou dos trinta que são tão velhas, e no entanto há outras, com setenta ou oitenta, que transbordam jovialidade. Tudo depende da personalidade, dos genes, das circunstâncias da vida, da maneira como se encara a vida, do otimismo ou da falta dele, etc.
A autora do poema acima morreu com 36 anos, não chegou portanto a sentir no seu corpo a passagem dos anos que lhe permitisse chegar à velhice. No entanto, sentia-se velha, e sentia que os outros a viam como uma velha. Aqui trata-se de um caso extremo, de uma pessoa imensamente amargurada, mas quantos de nós, em certas alturas da vida, não nos sentimos já velhos, apesar de supostamente ainda não termos idade para isso? Pelos menos eu já me senti algumas vezes, tanto física como mentalmente. É claro que tento combater esses sentimentos, mas por vezes o cansaço, físico ou mental, é tão grande, que me faz sentir uma autêntica velhinha. 
Mas voltando à melhor idadeÉ claro que a chamada terceira idade pode ser a melhor. Pelo acumular de conhecimentos, de experiências, de vivências. Pelas viagens feitas, pelas pessoas que connosco conviveram e convivem, pelos aniversários vividos, pelos Natais, por ver mais uma Primavera e mais um Outono, folhas que caem e folhas que voltam a nascer, ano após ano, tudo isso dá uma grande bagagem que se pode usar da melhor forma quando se chega à idade de ouro. 
É muito bom quando as pessoas conseguem chegar a essa idade com saúde e na plena posse das suas faculdades intelectuais. É muito bom que as famílias respeitem e acarinhem os mais velhos, até porque eles são uma fonte de saber e de experiências que é importante partilhar com os mais novos. Infelizmente nem sempre é assim. Quantas e quantas pessoas dedicam as suas vidas a cuidar dos outros, e quando ficam debilitadas e perdem capacidades, são atiradas para os lares da terceira idade? Que muitas vezes não são mais que meros depósitos de corpos inválidos que ali estão à espera da partida? Isso é muito triste. Com certeza que existem locais onde as pessoas idosas são muito bem tratadas, mas normalmente isso implica o pagamento de uma mensalidade  que só uma muito pequena parte da população tem capacidade para suportar. 
Numa sociedade ideal, os idosos deveriam permanecer no seio das suas famílias. No entanto, há casos em que as pessoas pura e simplesmente não têm disponibilidade de tempo para cuidarem dos seus idosos a tempo inteiro, mas também acontece, muitas vezes, que as pessoas não estão para isso, não querem ter esse fardo. Esquecem-se tão rapidamente que foram cuidados pelos seus pais na sua infância, que eram totalmente dependentes deles, que fizeram muitos chichis e cocós nas fraldas, e que alguém lhes limpou muitas vezes os rabinhos. Acontece é que a nossa sociedade vê um rabinho de bebé com uma coisinha muito linda (quantas vezes não ouvimos dizer "que pele tão suave, parece o rabinho de um bebé), mas quando passam os anos, ele torna-se numa coisa considerada feia e repugnante. Enquanto esta mentalidade não mudar, e os idosos não forem vistos e tratados com o respeito que merecem, vamos continuar a ver muitos deles naqueles lugares degradantes, muitas vezes em situações totalmente impróprias para um ser humano. 
Bom, mas para não terminar numa onda de baixo astral, sempre vou dizendo que há certas coisas que podemos (e devemos) ir fazendo ao longo da vida para tentar assegurar uma velhice o mais saudável possível.  Começando pelos cuidados com a alimentação, passando por manter sempre actividades que mantenham a mente ocupada, assim como actividades físicas, caminhadas ao ar livre, à beira-mar, no campo ou em parques onde o ar seja puro, tudo isto podem ser contributos para se chegar com  qualidade de vida à melhor idade.




sexta-feira, 29 de julho de 2011

Dez anos


Eu estou pasma. Como é possível que se tenham passado DEZ anos? Onde é que estes anos se enfiaram? No túnel do tempo? Pois se ainda há uns dias fui para a maternidade com uma dorzinha que mais me parecia que me estava a "prender" a perna... só que isso afinal já foi há 3.650 dias! Como isto aconteceu, como estes anos passaram tão rapidamente, não sei. Mas a verdade é que passaram

Todos os dedos das mãos. Um número com dois algarismos.
Dez anos!





Nem vou falar de todos os momentos maravilhosos, de toda a felicidade, isso é chover no molhado. Além de que é indescritível. É toda uma vivência diária de descobertas, de aprendizagens de parte a parte, de enriquecimento da Alma.

Claro que nem tudo são rosas, todas as rosas têm os seus espinhos, mas o perfume é inebriante e inconfundível!
Obrigada, minha linda, por existires.




quinta-feira, 21 de julho de 2011

sábado, 16 de julho de 2011

BCFV - Maturidade

Mais uma fase da vida, mais uma etapa desta Blogagem Colectiva, que me tem feito ir ao fundo do baú, por vezes remexer em velhos fantasmas, mas que, sinceramente, me tem ajudado a ver certas coisas com uma maior nitidez.  Por isso quero agradecer às organizadoras, Rute, Gina e Orvalho do Céu. Tem sido uma experiência enriquecedora. Por vezes dolorosa, por fazer mexer em certas feridas, mas sempre com um balanço positivo.




«À medida que conquistamos a maturidade tornamo-nos mais jovens. Comigo passa-se isso mesmo, muito embora tal não queira dizer muito, pois mantive sempre o mesmo sentimento perante a vida desde os anos de rapaz; nunca deixei de encarar a minha vida adulta e o envelhecimento como uma espécie de comédia. »


Hermann Hesse, in 'Elogio da Velhice'




Maturidade é um conceito abstrato. Um jovem de 16 ou 17 anos pode mostrar maturidade, e um adulto pode ser imaturo até à velhice. Depende das circunstâncias, depende da personalidade, depende de factores externos ou internos, de um sem-número de situações.

Esta foi uma fase sobre a qual me custou começar a falar. Estou em plena maturidade, se fizer uma analogia com a fruta, quase posso dizer que estou a começar a ficar "tocada", ou seja, com algumas mossas, a "passar do ponto". Afinal de contas, já dizia André Gide:

'"Como é que se vê que o fruto está maduro? Quando ele cai do ramo."  


A maturidade pode ser o estado ideal (em alguns dicionários chega a ser sinónimo de perfeição), mas também precede a fase em que se começa a ficar maduro de mais...

Brincadeiras à parte, a minha pouca predisposição para falar sobre a maturidade, bem vistas as coisas, deve-se às minhas frustrações. Maturidade costuma ser sinónimo de estabilidade, segurança, equilíbrio, e a minha vida, presentemente, não tem nenhuma dessas características, muito pelo contrário. O que me rodeia é precisamente a instabilidade, a insegurança, a incerteza.
E depois lá vem a tal voz interior dizer-me (e com razão!): se tivesses feito isto ou aquilo de outra maneira, hoje a situação seria diferente.
Mas não vou carpir mais mágoas. Se por um lado tenho vontade de deitar tudo para fora, protestar, lamentar-me, por outro lado algo me impede de o fazer, fica uma sensação de estar a pôr a minha alma demasiado a nu, e também não me sinto confortável com isso.

Quando é que atingi a maturidade? Não sei. Sempre me lembro de mim muito madura, acho até que nunca fui imatura, isto no sentido de irresponsável, inconsequente. Mesmo na juventude sempre fui muito "atinadinha". Nunca fiz nenhuma grande loucura, apesar de ter feito muitas pequenas loucuras, muitos disparates. Isto no tal sentido de coisas que deveria ter feito de outra maneira, sempre esse fantasma que me persegue. Admiro (e admiro-me com) as pessoas que dizem não se arrepender de nada que tenham feito na vida. Eu arrependo-me de tanta, mas tanta coisa! E não acho que isso seja totalmente negativo. Quer dizer, há um limite, é preciso ficar num equilíbrio. Por um lado, se nos arrependemos é porque reconhecemos o erro, e supostamente vamos aprender com ele (às vezes não...). Por outro lado, também sei que não é bom para ninguém ficar escravo desse sentimento, e passar a vida a lamentar-se do que se poderia ou deveria ter feito e não se fez, ou se fez da maneira errada. Enfim, como em tudo é preciso chegar ao equilíbrio, e neste momento da minha vida sinto-me mais desequilibrada, talvez por isso mesmo até esteja com dificuldade em expressar o que sinto, acho que isto está a sair um tanto ou quanto confuso... tal e qual como está a minha mioleira...

A minha maturidade, neste momento, está a ser um osso duro de roer. Vou ali fazer um retiro, resolver trezentos e cinquenta problemas, e já volto... talvez mais madura.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Um ano e um dia OU um dilema existencial

Há 16 dias que estava para fazer um esclarecimento, e só hoje houve oportunidade. Como tal, lembrei-me de um "ditado" que sempre ouvi aos meus pais: «uma resposta tem um ano e um dia». Não sei qual a proveniência do dito, mas cheira-me que seja do Alentejo (de onde o meu pai é originário), já que um ano e um dia para dar uma resposta é coisa que implica muita calma... um ritmo assim meio lento...
Mas o que se quer dizer é que nem sempre a resposta ocorre na hora; por vezes, depois de pensarmos sobre o assunto  é que nos ocorre a resposta acertada. 

Não é o caso desta situação. Na altura pensei logo em prestar o esclarecimento, mas depois varreu-se-me. Mas, como ainda estou dentro do prazo, cá vai: 
No dia 15 de Junho, aquando da blogagem colectiva fases da vida, escrevi este texto.
Houve algumas pessoas amigas que ficaram preocupadas com o meu desconsolo por já não ter 20 anos.  :)
Não é que não tenha algum... mas as palavras do início da minha postagem deveram-se a ter-me lembrado do refrão desta canção:





Mas afinal a história não acaba aqui. Na minha memória estava esta canção assim de uma forma um bocado desfocada, lembrava-me do refrão, lembrava-me de "quem me dera... ter outra vez desenganos... para te amar outra vez". E não era por aí, por questões amorosas, que eu queria voltar aos 20 anos. :))

Entretanto, hoje fui procurar o vídeo, e sinceramente foi um momento tão forte ouvir a Cidália Moreira a cantar, que dei por mim em lágrimas. Emocionei-me demais ao ouvir esta mulher fabulosa, há muitos anos que não a ouvia, e já quase não me lembrava como adoro a sua voz, a força das suas interpretações. Foi um momento arrepiante, neste momento considero que encontrei uma verdadeira pérola ao achar este vídeo. 
Isto tudo para dizer que uma ida ao youtube na maior descontracção, tornou-se num momento muito forte. Já ganhei o dia. Mas, fogo, pá, o problema é que agora é que fiquei mesmo com vontade de ter OUTRA VEZ VINTE ANOS!