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terça-feira, 15 de maio de 2012

BCAP - Esperança - O Desejado



Chegámos à 3ª fase  da BCAP, desta vez dedicada à ESPERANÇA.



Ora, uma vez que as minhas anteriores participações nesta BC foram relacionadas com a História de Portugal, e para continuar na mesma linha, vou ter que reincidir (tentando não ser exaustiva...)  :)
Então, lançando um olhar ao passado, que episódio é que relacionei imediatamente com Esperança? D. Sebastião, O Desejado.

D. Sebastião, o jovem rei desaparecido em Alcácer Quibir e cujo regresso o povo português aguardou durante anos e anos, décadas e mesmo séculos. A Esperança no seu regresso manteve-se viva.
Se virmos bem, ainda hoje o aguardamos.
Pintura da autoria de Carlos Alberto Santos. Pode clicar para ampliar. Vale a pena, é um belo quadro.
O Desejado
Onde quer que, entre sombras e dizeres,

Jazas, remoto, sente-te sonhado,

E ergue-te do fundo de não-seres

Para teu novo fado!


Vem, Galaaz com pátria*, erguer de novo,

Mas já no auge da suprema prova,

A alma penitente do teu povo

À Eucharistia Nova.


Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,

Excalibur do Fim, em geito tal

Que sua Luz ao mundo dividido

Revele o Santo Gral!

Fernando Pessoa, Mensagem

Retrato de D. Sebastião da autoria de Cristóvão de Morais, exposto no Museu Nacional de Arte Antiga


D. Sebastião nasceu em Lisboa a 20 de Janeiro de 1554. 
Sucedeu a seu avô D. João III.
O seu nascimento era esperado com ansiedade,  pois a coroa corria o perigo de vir a ser herdada por outro neto de D. João III,  filho de Filipe II de Espanha.
 (E afinal Portugal viria mesmo a ser governado durante 60 anos pelos Filipes de Espanha)

Foi desejado antes de nascer, foi desejado depois de morrer.

D. Sebastião cresceu na convicção de que Deus o criara para grandes feitos.

Cheio do seu sonho de conquista, Portugal não lhe bastava.  Sendo o seu grande objectivo ir a África combater os mouros, a sua maior preocupação foi  reunir um exército de jovens temerários e exaltados como ele próprio.

Em Junho de 1578, dá-se a partida em direção a África. Chegam perto de Alcácer Quibir a 3 de Agosto e no dia 4, o exército português, ao que parece  esfomeado e exausto pela marcha e pelo calor,  foi completamente destroçado.

 D. Sebastião morreu em Alcácer Quibir, a 4 de Agosto de 1578.

Será? ?

É que o seu corpo desapareceu... Ora, esse facto foi mais do que suficiente para se dar início a um mito que havia de perdurar por muitas gerações. Durante os anos seguintes, o povo acreditava mesmo que ele havia de regressar, num dia de nevoeiro - o Encoberto.




Tinha nascido a lenda.


El-Rei D. Sebastião, José Cid/Quarteto 1111.
 (Para ver em ecrã completo tem que entrar no "youtube")


Estava criado o mito sebastianista, que tem povoado o imaginário colectivo do nosso povo ao longo dos séculos, e que tem servido de inspiração a escritores, poetas, pintores e outros artistas.


E agora perguntarão, mas o que tem isto a ver com Amor, já que estamos na BC Amor aos Pedaços?

E a minha resposta é: é um grande amor ou não é,  o de um povo por este Rei que, desaparecido há mais de quatro séculos, ainda continua a ser desejado? :)

Ao longo dos séculos, através de sucessivas crises, vendo-se o povo em situações difíceis, logo vem à baila D. Sebastião. Obviamente, já não ele próprio, mas o que a sua figura passou a simbolizar: o Salvador, aquele que há-de chegar, saído das brumas, para nos salvar da desgraça e nos reconduzir à grandeza perdida.
E eis-nos, em 2012, no meio de mais uma crise, nas mãos da "troika", vivendo do dinheiro emprestado pelo FMI e pelo BCE (emprestaram-nos umas costeletas mas querem um porco inteiro em troca...) e mais uma vez à espera do desejado, sempre na esperança de que alguém nos salve...

Quem será o  salvador deste povo?

Seremos nós próprios?


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* explicação relativa ao poema:
"Galaaz com pátria" - O Desejado, D.Sebastião que é equiparado a Sir Galahad, o cavaleiro virgem do Ciclo da Távola Redonda a quem foi dado conhecer o Santo Graal. A origem de Galahad era desconhecida (não tinha pátria) embora na verdade fosse filho de Sir Lancelot.
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Nota: Gostava de dedicar o vídeo acima à querida Ivani, do blog Samambaia, porque sei que ela vai gostar de ver essas belas imagens de Portugal, que ela tem no coração. :)

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Créditos: 

Agradecimentos:
 às organizadoras do evento:

RUTE, do blog Publicar para Partilhar

ROSÉLIA, do blog Espiritual-idade

e LUMA ROSA, do blog Luz de Luma, yes party! 



domingo, 15 de abril de 2012

Desencanto - BCAP

 

 

Chegados à 2ª fase da BCAP, escolho D. Constança para simbolizar o DESENCANTO


Continuando na mesma história que referi na 1ª fase desta BC, o famoso caso de amor da História de Portugal, entre D. Pedro e D. Inês de Castro, e tendo em conta o triângulo Pedro-Inês-Constança, o quinhão do DESENCANTO vai sem dúvida para D. Constança.

Infanta castelhana, chega a Portugal em 1340 cheia de ilusões de um futuro feliz ao lado de D. Pedro, depois de anos de expectativa e angústia. Na verdade, antes de chegar a Portugal, já D. Constança tinha tido uma vida de sofrimento.

A vida desta mulher não foi nada fácil. Em 1325, quase uma criança ainda, com doze anos, é dada em casamento a D. Afonso XI de Castela. Devido à sua pouca idade, o casamento não se consuma, mas no papel ele já existe, para todos os efeitos legais D. Constança Manuel já é casada e portanto «rainha» de Castela.

Tudo indica que o inconstante e até maquiavélico Afonso XI tenha realizado este casamento já com o propósito de repudiar a noiva na primeira oportunidade. O casamento teve apenas como objectivo assegurar o apoio militar e político de D. João Manuel, pai de Constança, um dos mais importantes e influentes fidalgos castelhanos.

D. Afonso XI, aos dezoito anos, tornou pública a sua decisão de cancelar o casamento com D. Constança, então com catorze anos. Primeiro Desencanto.

«O casamento não passara de vil comédia para ludibriar D. João Manuel. (...) Soava a hora de libertar-se de compromissos tomados de má-fé. Repudiou a esposa, mas conservando-a em seu poder, como precioso refém. A que ontem era a rainha D. Constança transitou, por ordem do monarca, dos aposentos reais para a cela de um convento, onde ficou bem guardada.»(1)

D. João Manuel recebeu o recado de que, ao menor sinal de tentativa de resgatar a filha, esta seria degolada.

E eis D. Constança vivendo o seu primeiro DESENCANTO, às mãos deste maquiavélico rei. Mal ela sabia que outro maior ainda estava para vir…

Depois de anos de guerras e batalhas várias em Castela, e no meio de mais uma jogada política, é combinado o casamento de D. Constança com o infante D. Pedro de Portugal, filho do rei D. Afonso IV.

E, no ano de 1340, Constança chega a Portugal para desposar o futuro rei D. Pedro I. E o resto já se sabe: na mesma comitiva, e entre várias aias, chega também a Portugal D. Inês de Castro. Não passará muito tempo até que D. Pedro caia de amores por ela, e ela por ele. Conhecida pela sua beleza, pelos seus longos e fartos cabelos louros, pelos olhos verdes, e sobretudo pelo «colo de garça», não foi difícil que D. Pedro caísse no seu encantamento.

Pedro e Inês

E como normalmente na vida o bem de uns é o mal de outros, foi D. Constança que ficou mais uma vez presa nas teias do desencanto.

Duas vezes à beira de ser rainha, e duas vezes vítima do destino, atirada para uma vida de sofrimento.

«De intranquilidade eram feitos os dias de D. Constança, que sabia que, nos seus paços, o marido não se inibia de cortejar D. Inês de Castro. Quando a princesa teve o primeiro filho, em 1342, deu ao infante o nome de Luís. E para madrinha do recém-nascido convidou D. Inês de Castro, pretendendo desta forma travar aquela relação. Pela lei, pelo menos pela da Igreja, perante esta relação de parentesco não poderia ter qualquer relacionamento com D. Pedro I.

Foi pura ilusão, porque os encontros dos amantes continuaram.

D. Constança começou a ter problemas de saúde. Aliou-se a infelicidade tremenda de o filho D. Luís falecer em tenra idade. Teve ainda um segundo filho, Fernando, mas já não teve forças para o amamentar, e este foi criado por uma ama de sua confiança.

D. Constança passava os dias a meditar sobre a sua triste sorte. Em longas noites de Inverno, sentada junto à ampla lareira da torre, pensava muitas vezes em fazer peregrinação a Santiago de Compostela, para rogar protecção e paz para o seu ameaçado lar. Não chegou, porém, a realizar os seus sonhos.»(2)

A sua vida de desencanto terminou em 1349, após o nascimento da sua filha Maria.


Só aí terá conseguido alcançar a paz que não chegou a conhecer em vida.



(1) Inês de Castro na vida de D. Pedro (Mário Domingues)

(2) A Vida Louca dos Reis e Rainhas de Portugal (Orlando Leite, Raquel Oliveira e Sónia Trigueirão)


quinta-feira, 15 de março de 2012

Encantamento


BCAP - 1ª fase

Apesar das "dificuldades logísticas", venho dizer presente! a mais este desafio.


Para abordar o tema, que nesta 1ª fase será o encantamento, escolhi a história de Pedro e Inês, o romance de amor mais famoso da História de Portugal, inspirador de inúmeras obras artísticas, passando pela Literatura, Cinema, Pintura, e outras formas de arte. Enfim, são os nossos «Romeu e Julieta». E uma vez que grande parte dos(as) participantes desta colectiva são brasileiros(as), convido-vos a conhecer um pouco da riquíssima História de Portugal, muitas vezes esquecida ou subvalorizada. 

Quem são Pedro e Inês?
O Infante D. Pedro, futuro rei D. Pedro I de Portugal (O Justiceiro).
Dona Inês de Castro, nobre galega, que chegou a Portugal integrando o séquito de Dona Constança, futura esposa de D. Pedro.

Dona Constança chegou a Portugal no ano de 1339, para se casar com o Infante D. Pedro. Escusado será dizer que nunca se tinham visto, já que se tratava de um casamento combinado pelas famílias, como era habitual na época.
Ao que parece, Dona Constança enamorou-se por aquele que se tornou seu esposo a 24 de Agosto desse ano, mas... ele iria encantar-se pela bela Inês, e esta por ele.

Este encantamento viria a trazer grandes e variadas complicações, mas tornou-se sem dúvida num dos episódios mais lendários da nossa História.



«(...) por ter perdido a ocasião de desfrutar da visão daquele colo alvíssimo, daqueles serenos olhos azuis e do sorriso que, apenas esboçado, iluminava o rosto de Inês. Quanto havia rogado, antes de entrar no salão, que a jovem que havia visto de relance na liteira fosse a sua futura esposa! Como seria fácil amá-la! Mas não era ela! »

Uma perspectiva romanceada do que teria sido a primeira troca de olhares entre Pedro e Inês, num excerto do belíssimo livro Inês de Castro, de María Pilar Queralt del Hierro.



VARIAÇÃO SOBRE ROSAS

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.

Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.


Nuno Júdice
Pedro, Lembrando Inês

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Espero vir a desenvolver melhor este tema em outras fases, quando fizer as pazes com o acesso à net, que neste momento está complicado. :)